MIELOMA MÚLTIPLO
Conceito:
O mieloma múltiplo (MM) - ou doença de Kahler - é uma neoplasia maligna da linhagem linfoplasmocitária, caracterizada pela super produção de imunoglubulina (Ig) monoclonal (de um só tipo) e secreção do fator de atividade osteoclástica, que conduz a lesões focais em ossos. É a síndrome gamopática plasmocitária monoclonal mais comum e importante.
Histórico:
O primeiro caso foi descrito em 1845 por McIntyre. A amostra de urina deste paciente foi estudada por Henry Bence Jones. O primeiro estudo detalhado de um caso foi descrita por Kahler em 1889.
Epidemiologia:
É mais comum por volta dos 60 anos de idade (pico de incidência aos 70 anos). Menos de 2% dos casos ocorrem antes dos 40 anos. Há discreto predomínio no sexo masculino, e incide duas vezes mais na população negra.
Corresponde a 1% de todas as neoplasias (15% das hematológicas [incidência 40% maior que a doença de Hodgkin]).
Patogenia:
A causa da proliferação anômala da linhagem linfoplasmocitária não é totalmente elucidada. Teoriza-se que fatores ambientais, ou externos, interagem com um fator genético predisponente que determine o MM.
Muitas anormalidades citogenéticas são encontrados em frequência variada no MM, por exemplo: trissomias (cromossomos 3, 5, 7, 9, 11, 15, 18, 19, 21), monossomias (8, 13, 16, 20, 22), translocações dos tipo t(11;14), t(8;14) e t(14;18), hipodiploidias, deleções, entre outras. Tais anormalida-des determinam rearranjos genéticos que aumentam a expressão de certos genes (proto-oncogenes se tornam oncogenes) e diminuem a atividade de outros (mutações do gene supressor p53).
Dentre as principais alterações determinadas por mutações frequentemente encontradas no MM, temos:
Existe intensa inter-relação ente as células mielomatosas e as outras células do estroma medular, incluindo osteoclastos e os-teoblastos. Não são totalmente definidas as causas que aumentam a reabsorção óssea com diminuição da atividade osteoblás-tica, porém reconhece-se importante papel do fator ativador osteoclástico
99% dos pacientes possuem um pico elevado de imunoglobulinas monoclonais séricas na eletrofose (paraproteínas e/ou cadei-as leves na urina [proteína de Bence-Jones], sendo este último caso em até 20%). Em cerca de 60% dos casos a imunoglobu-lina produzida é a IgG, em 25% é a IgA, e o restante, 15%, é de IgM (macroglobulinemia de Waldenström [MW]), IgD ou IgE (este tem o pior prognóstico, apesar de ser extremamente raro).
Há um forma de mieloma múltiplo não secretor, que não libera imunoglobulinas. Correspondem a 1-8% dos casos de MM.
Existem raríssimos casos de MM biclonais, ou seja, que possuem dois picos elevados de imunoglobulinas no soro provenientes de dois clones neoplásicos distintos.
Quadro Clínico:
-Sintomas Gerais: Astenia, fadiga e palidez. A anemia (que às vezes é do tipo hemolítico) é resultado da infiltração mielomatosa do es-troma da medula óssea.
-Sintomas osteoarticulares:
-Infecções: quse sempre de natureza grave; deve-se a falta de produção de imunoglobulinas policolnais efetivas (como toda gamopatia monocolonal) e pela granulocitopenia (infiltração da medula óssea).
-Náuseas e vômitos: geralmente assoaciados à hipercalcemia
-Síndrome da hiperviscosidade sanguínea: geralmente resultam em sangramento de mucosas, AVC, hemorragias, tonturas/náu-seas, distúrbios visuais, alteração do estado mental, sonolência, convulsões. Estes sintomas são mais prevalentes na MW. To-davia não é comum a infiltração do SNC por células mielomatosas, sendo os sintomas associados à hiperglobulinemia.
-Sintomas de insuficiência renal: associado a infecções e lesão tubular por proteinúria, hipercalciúria e hiperuricemia. Ocorre deposição amiloidótica parenquimatosa, além de acidose tubular renal.
-Sintomas neurológicos: normalmente devem-se à hiperviscosidade sanguínea e deposição de substância amiloidótica, porém a compressão neoplásica de raízes nervosas por lesões líticas das vértebras e da coluna podem determinar sintomas sensoriais e motores.
-Outros: insuficiência cardíaca congestiva, tumorações (espleno e/ou hepato e/ou adenomegalia, infiltrações glandulares, etc.), lesões retinianas, acrocianose/fenômeno de Raynaud.
Exames Laboratoriais:
Tratamento:
É necessário ter em mente que:
A) Tratamento de suporte:
B) Quimioterapia:
É o método de escolha. Tem como base o uso de duas drogas: melfalan e prednisona, via oral, em um intervalo de 4-6 sema-nas. Este esquema costuma ser bem tolerado.
Existem esquemas mais agressivos, como o M2, que associa: ciclofosfamida + vincristina + BCNU (carmustina) + prednisona. É importante lembrar que mesmo utilizando-se esquemas agressivos raramente a erradicação completa do clone celular anô-malo é conseguida. Tais protocolos são mais utilizados em pacientes mais jovens com doença em progressão.
Na verdade a quimioterapia (QT) inicial pode promover remissão completa em até metade dos casos, e a doença entra em uma fase de platô, com um baixo índice mitótico e normalização dos exames bioquímicos em muitos casos, todavia o prognós-tico pouco se altera já que mesmo utilizando terapia de manutensão da remissão a regra é a recidiva.
Na MW uttiliza-se o esquema M2 ou predinisona + um agente alquilante (ex.: clorambucil).
Transplante de medula óssea (TMO) raramente é empregado, já que os pacientes geralmente são idosos e não resistem a a-gressiva preparação mielossupressiva necessária para a sua realização (mortalidade en torno de 50%). Todavia, seria a única terapia que visa a cura. MM tipo IgA responde pior ao TMO. Se indicado, o TMO deve ser autólogo para para pacientes em torno dos 55 anos e alogênico caso < 45 anos.
MM muito agressivos beneficiam-se de irradiação medular total, e se possível TMO em seguida utilizando-se também esque-mas de QT como VMCP ou VBAP para o preparo.
MM refratário ou recidivado requerem outros protocolos: VAMP e C-VAMP.
C) Outras formas de tratamento:
Análogos de nucleosídeos como a cladribina (2CdA) tem sido usados na MW recidivada.
Devido a deficiência imunológica humoral policlonal tem-se tentado utilizar, ainda como terapia de segunda linha e/ou experimental: INF-alfa (mais em idosos e casos avaçados de MM e MW, ou nos casos em remissão), IL-2 (controla a linfoprolife-ração de maneira abrangente, é grande promessa e motivo de estudos para diversas aplicações no tratamento do MM), talido-mida (em quem responde mal à QT), "bloqueadores" de IL-6, entre outros.
Prognóstico:
A história natural da doença é de caráter progressivo, porém de forma lenta evolui inexoravelmente para o óbito Pacientes jovens costumam evoluir mais lentamente, com maior sobrevida.
A sobrevida média após o diagnóstico e tratamento com QT é de 36-40 meses, porém pode variar desde poucos meses até mais de 10 anos em raríssimos casos.
Há alterações citogenéticas que indicam melhor ou pior prognóstico, demostrando a importância da imunofenotipagem.
A dosagem de beta-2 microglobulina é considerada o principal fator prognóstico dos pacientes com MM. Esta protéina existe em quase todas as células e correlaciona-se com a massa tumoral total em divisão presente em neoplasias hematológicas (principalmente MM e linfomas). É forte indicador da remissão e recidiva da doença em pacientes com função renal preservada. Os de melhor prognóstico têm nível sérico < que 2 microgramas/ml, e o de pior > 6. Também pode ser utilizado como marcador de pacientes com MM não-secretor. Todavia, é uma técnica de difícil realização e é muito cara.
O MM, em alguns casos, pode leucemizar de duas formas: leucemia plasmocitária primária (quando na fase inicial da doença, e é mais comum em jovens) ou leucemia plasmocitária secundária (em fase tardia). Ambas caracterizam-se por plasmocitose = ou > 20% (ou em número absoluto: = ou > 2000 plasmócitos). As duas formas têm evolução, resposta ao tratamento e prognóstico sombrios.
Outras gamopatias monoclonais devem ser acompanhadas a longo prazo devido ao risco de malignização dessas, os quais sempre têm evolução grave e respondem pessimamente a qualquer terapêutica intituída.
O principal objetivo ao lidar com os pacientes vítimas do mieloma múltiplo é o de proporcionar melhores condições de vida.