Autor: Dr. M.C. de Mello Motta
1 - Considerações gerais
As
relações mais íntimas entre o cérebro e sistema
imunológico começaram a ser melhor esclarecidas na
década de 70, quando o psicólogo Robert Ader e o imunologista
Nicholas Conhem realizaram um importante experimento, envolvendo
a administração a ratos de uma droga imunossupresora, junto
com água adoçada com sacarina. O sistema imunológico
dos ratos fica condicionado ao sabor da sacarina; por fim, a administração
da água adoçada, isoladamente, levou à supressão
do sistema imunológico, à doenças e à morte.
Oferecem-se provas irrefutáveis de que o cérebro poderia
influenciar diretamente a imunidade.
A partir daí, numerosas pesquisadores descobriram diversas conexões
fisiológicas entre o cérebro e o sistema imunológico.
Eles mostraram que as células do sistema imunológico podem
reagir as substâncias químicas e que as células nervosas
reagem a mensageiros químicos secretados pelo sistema imunológico,
estabelecendo uma comunicação plausível entre os dois
sistemas.
Essa descobertas fisiológicas, juntamente com vários estudos
clínicos de doenças que vão do resfriado comum à
AIDS, deram orgiem à area da Psiconeuroimunologia
2 - visão geral do S.I.
As células do sistema imunológico formam um forte exército,
cujos principais elementos são linfócitos. Os linfócitos
B ou células B são células que produzem anticorpos
circulantes. Os anticorpos são pequenas proteínas membros
da família das imunoglobulinas, que atacam bactérias, vírus
e outros invasores externos ( antígenos ) . Os anticorpos se "encaixam"
às moléculas de antígeno que atacam como uma chave
que se ajusta à fechadura. Cada anticorpo ataca apenas um tipo de
antígeno - p. ex, um vai atacar o vírus do resfriado, enquanto
o outro ataca uma bactéria - e cada linfócitos B produz apenas
um tipo de anticorpo para cada epítopo ( epítopo = parte
do antígeno que é capaz de estimular a produção
de anticorpos específicos contra ele).
Os linfócitos T ou células T, não produzem anticorpos.
Essas células atacam o invasores externos ou trabalham junto com
outras células que o fazem ( "T "vem do Timo, onde essas células
se desenvolvem).
Os vários grupos de células T possuem diferentes funções
: As células T citotóxicas, junto com outras células
sangüíneas citotóxicas naturais ( NK - natural Killer)
patrulham constantemente o organismo em busca de células perigosas.
Quando encontram essas células T "associam-se" às células
invasoras e liberam substâncias químicas microscópicas
que as destroem. Cada célula T citotóxica , assim como cada
anticorpo, ataca apenas um alvo muito específico: alguns atacam
células que foram infectadas por vírus, outros atacam células
cancerosas e alguns atacam tecidos e órgãos transplantados.
Cada célula citotóxica natural (NK), por sua vez, tem ma
ampla gama de alvos e pode atacar tanto células tumorais quanto
uma variedade de micróbios infecciosos.
Dois outros tipos de células T, chamada de células T "auxiliar
ou LThelper" e "supressores" são especialmente importantes devido
aos seus efeitos regulatórios sobre o sistema imunológico.
As células T auxiliar ajudam os linfócitos B a produzir anticorpos,
enquanto as célulasT supressores desativam a ação
das células T auxiliares, quando o número de anticorpos produzidos
é suficiente. Essas células comunicam-se entre si produzindo
interferons, interleucinas e outros mensageiros químicos que governam
a atividade das células do sistema imunológico. A proporção
entre células auxiliares/supressores devem ser equilibrada para
a saúde do organismo.
3 - Mente
x S.I.
Os linfócitos T e B têm receptores na superfície de
sua células que podem acionar, dirigir e modificar suas funções
imunológicas. Esses receptores são a base molecular da influência
da mente nos linfócitos. Os receptores são como fechaduras
que podem ser abertas para acionar as atividades de cada célula.
As chaves que abrem essas fechaduras são as moléculas mensageiras
da mente-corpo: os neurotransmissores do sistema-nervoso autônomo,
os hormônios do sistema endócrino e os imunotransmissores
do sistema imunológico.
A mente regula ambos os sistemas , endócrino e nervoso autônomo.
O sistema imunológico pode se comunicar de volta com o hipotálamo
e com o sistema nervoso autônomo e endócrino via imunotransmissores.
Acredita-se que haja circuitos bidirecionais entre o sistema nervoso central
(SNC) e o sistema imunológico. Produtos solúveis que parecem
transmitir informação do compartimento imunológico
para o SNC incluem timosinas, linfocinas e certas proteínas. Os
peptídeos opióides, hormônio adrenocorticotróficos
( ACTH) e o hormônio estimulante da tireóide ( THS) são
produtos adicionais de linfócitos e podem funcionar em circuito
imunomodulatórios neuroendócrinos. A timosina pode
servir como imunotransmissor, modulando os eixos hipotalâmicos hipofisário-suprarrenal
e das gônadas. O sistema nervoso seria capaz de alterar o curso da
imunidade via caminhos autônomo e neuroendócrino.
Um fato inconteste é a modulação psicológica
direta e intencional do sistema imunológico . A ênfase no
aspecto intencional e voluntária da situação psicológica
é de grande importância. Um trabalho sobre a modulação
mental do sistema imunológico via hipnose , placebos e condicionamentos
comportamentais demonstrou que os processos de cura mente-corpo podem
ser aditivados por influência externa. Outros trabalhos implicam
que os humanos podem treinar a si mesmos para facilitar seus processos
de cura interna mente-corpo.
Se se prova que o fato do ser humano poder modular significativamente sua
resposta imunológica, então dois resultados importantes podemo
ocorrer: o mecanismo de infecção ou de surgimento do câncer,
associados com vários processos psicológicos, tais como desesperânça
ou depressão, pode, possivelmente, ser melhor entendido.
Qualquer forma de estresse resultante de uma significativa mudança
de vida (p. ex., a morte de um membro da família, mundança
de emprego, mudança de família, etc.), pode ativar o eixo
cortical-hipotalâmico-suprarrenal, para produzir os corticoesteróides
que suprimem o sistema de vigilância imunológica - Lembre-se,
os corticóides atuam no núcleo das células retardando
a multiplicação celular e isso impede a expansão clonal
leucocitária. Em resposta à mudança estressante
de vida observa-se uma diminuição na atividade das células
NK ( natural Killer ) exterminadore naturais. A boa habilidade em lidar
com desafios ( poucos sintomas diante de um considerável estresse)
estava associado com uma alta atividade celular NK exterminadora natural.
O uso da sugestão hipnótica para intensificar ou deprimir
a imunidade celular e resposta às injeções de antígenos
foi bem comprovado por diversos autores.
NEUROTRANSMISSORES E HORMÔNIOS COM PROPRIEDADES IMUNOMODULATÓRIAS
| Glicocorticóide | Estimula produção de anticorpo, atividade NK, produção de citocinas |
| Catecolaminas | Estimula proliferação linfocitária sob estímulo mitógeno in vitro |
| Acetilcolina | Diminui o número de macrófagos e linfócitos na medula óssea |
| Homônios sexuais | Controla transformação blástica de linfócitos |
| Endorfinas | Controla a síntese de anticorpo, ativação de macrófagos e células T |
| Metionia - encefalina | Estimula em dose baixa, ativação de células T; em altas doses inibe |
| Tiroxina | Estimula a ativação de LT e anticorpos |
| Prolactina | Ativa macrófagos e anticorpos |
| Hormônio do crescimento | Ativa macrófagos, síntese de anticorpos e modulação da IL-2 |
| Vasopressina | Estimula a proliferação de LT |
| Acitocina | Estimula a proliferação de LT |
| Peptídeo intestinal vasoativo | Controla a produção de citocinas |
| Melatonina | Aumenta a síntese de anticorpos |
| ACTH | Controla a produção de citocinas, atividade NK, síntese de anticorpos, ativação de macrófagos |
| Somatostatina | Controla a síntese de anticorpos, resposta de linfócitos a mitógenos |

4 - Conclusão
Sabemos, atualmente, que as pessoas mais propensas a desenvolver doenças
em reação ao estresse provavelmente são aquelas cujos
sistemas imunológicos já estão parcialmente comprometidos,
seja por uma doença como a AIDS ou por processo natural como o envelhecimento.
Esses processos começam com defesas imunológicas depauperados,
o que permite que pequenas mudanças associadas com o estresse gere
conseqüências importantes. Até mesmo pessoas jovens,
geralmente saudáveis, podem ficar doentes com mais freqüência
quando sujeitos a períodos de estresse intenso, longo e contínuo.
Doenças cuja etiologia psicológica está provado: