1- Conceito
A Leucocitopoese é o nome dado a origem e
maturação de células brancas ou leucócitos,
à partir de células totipotentes, ou seja, células
com alto poder de diferenciação encontrados na medula óssea.
Células totipotentes também são responsáveis
por formar hemácias e megacariócitos (que formam plaquetas).
Então, as células totipotentes são responsáveis
pela hemocitopoese e não exclusivamente para a leucocitopoese.
Na formação do embrião antes
do segundo mês de vida, o primeiro órgão hemocitopoético
é uma parte derivada do mesoderma do saco vitelino. Neste local
surgem ilhotas sangüíneas que são formadas por aglomeração
de angioblastos. O sangue formado neste local não contem leucócitos,
nem plaquetas e as hemácias estão nucleadas (eritroblastos
primitivos megaloblásticos).
Quando o embrião está no seu segundo
mês de vida intra-uterina, inicia-se o "período hepatoesplênicotímico".
O fígado e o baço passam a ser os órgãos hemocitopoéticos.
O timo trabalha na maturação e produção de
linfócitos para o embrião.Esses linfócitos T ainda
não são capazes de realizar resposta imune, nem humoral nem
celular, estando ainda num período de reconhecimento. No sangue
do embrião neste período podemos encontrar leucócitos
granulócitos, plaquetas, eritroblastos definitivos, com predomínio
da hemoglobina fetal (HbS). A formação e o desenvolvimento
do timo estão descritos no capítulo 2 (ítem 2.3.1).
Quando o embrião está no seu terceiro
mês sua clavícula começa a se ossificar e inicia-se
a formação da medula óssea ( período medular-linfóide).
Na medula óssea a célula totipotente (célula primitiva
formadora das células do sangue) passa por diversas etapas de diferenciação
e multiplicação, onde acabam formando células precursoras
dos leucócitos. Essas células precursoras com alta atividade
mitótica proliferam-se na medula e depois diferenciam-se em células
maduras indiferenciadas na sua maioria ( com exceção dos
linfócitos, pois seu desenvolvimento se faz nos órgãos
linfáticos).

Fig.1.2 Esquema que ilustra a maturação dos linfócitos, que passa por diversos compartimentos dos corpo. O linfoblasto do tecido linfóide é originada LCFC que vem da multipotente linfóide que migrou até os tecido linfóides. Observe a importância do timo na formação dos linfócitos T. Linfócitos maduros também saem direto do timo, nas não fazem resposta imune.O Linfócito B pode ser formado tanto pela medula óssea como pelos tecidos linfóides no indivíduo.
As figuras são imagens microscópicas reais coradas pela hematoxilina-eosina
1.2 Estágios da Leucocitopoese
Na Leucocitopoese formam-se células com graus variados de diferenciação, morfologia e atividade mitótica. Cada tipo representando um estágio . Alguns estágios se completam na medula ósseas e outros se com pletam em órgãos linfóides. Vejamos agora os estágios que compõem a leucocitopoese:
1.2.1 Células Fonte.
Células fonte são células com alto poder de diferenciação,
que vão dar origem a todas as células do sangue. Não
possuem alta capacidade mitótica ( proliferação) e
mas tem auto-renovação, ou seja o seu número é
quase que constante e quando faltam algumas células, ocorre
a formação de outras para ocupar o seu lugar, porém
esta célula não tem a capacidade de proliferação.
Estão localizadas na medula óssea, onde iniciam a formação
de células precursoras de leucócitos e de hemácias.
A medula óssea possui dois tipos de células fonte: a
célula totipotente( ou célula tronco) e a célula multipotente
(ou célula pluripotente). A célula multipotente pode ser
subdividida em multipotente mielóide e multipotente linfóide.
A etiologia* de "multipotente" é devido a célula ter uma
múltipla capacidade diferenciação. O termo mielóide
é usado para indicar que essas células permanecem na medula
e o termo linfóide indicar que essas células migram para
os tecidos linfóides ( linfonodos, timo, baço...)
A célula totipotente é a célula
de maior capacidade de diferenciação, sendo, portanto, a
primeira célula do estágio e auto-renovável. Ela forma
a célula multipotente mielóide e multipotente linfóide
que irão dar continuidade a diferenciação para formar
as células do sangue.
2.2.2 Células progenitoras
Segundo os professores do universidade de São
Paulo L.C. Junqueira & José Carneiro, as células
progenitoras são as Células Formadoras de Colônias
(CFC).
Essas células provém das células multipotentes,
e possuem grande atividade mitótica e não são auto-renováveis
(o inverso das células fonte).
As CFC são particularizadas, ou seja existe
um tipo de CFC para cada tipo de linhagem de células sangüíneas:
As células multipotentes linfóides nos órgãos
linfóides (baço, linfonodos, timo..) que vieram da medula,
ou na medula óssea ,se diferenciam em célula linfocítica
formadora de colônia (LCFC). Isto ocorre sob estímulo da interleucina-7*
principalmente, que é liberada por células fonte.
As células multipotentes mielóides
dão origem, na medula óssea, às células
formadora de colônia eritrocítica (linhagem da células
eritropoiéticas). Ocorre sob estímulo da eritropoetina *,
que é livberada pelos rins. Essas células multipotentes
mielóides também se diferenciam em célula formadora
de colônia megacariocítica, monocítica-granulocítica
(MGCFC), eosinofílica (ECFC) e basofílica (BCFC), que se
faz atravésde estímulos como a IL-3, IL-1, IL-6 (interleucinas)
e GM-CSF (fatores estimuladores de colônias). O GM-CFC é produzido
pelos macrófagos e estroma da medula óssea. A colônia
MGCFC, ainda se diferencia em células formadoras de colônia
monocítica (MCFC) e granulocítica (GCFC).(veja fig.1.1)
2.2.3 - Células precursoras
Nesta fase se inicia a diferenciação
morfológica da células .As células precursoras tem
grande atividade mitótica e não são renováveis.
Todas são monopotentes, ou seja, cada precursora da origem a apenas
um tipo de célula. Elas provém das células formadoras
de colônias e dão origem às células
maduras que vão agir no organismo. É interessante destacar
a densidade da cromatina nuclear, que vai sempre se tornando mais condensada
até atingir o estágio maduro.
O linfoblasto está presente nos tecidos
linfóides ou medula óssea e é mostrado
na figura 1.2. Os linfoblastos B na medula óssea e nos
órgãos linfóides dão origem aos pro-linfócitos
B. Os pro-linfócitos B estão na medula óssea e muitos
migram para os tecidos linfóides e os que estão nos tecidos
linfóides permanecem neles. Estas células dão
origem aos linfócitos B ( esse conjunto de células citado
vai formar as estruturas nodulares típicas dos órgãos
linfóides, com exceção do timo). Essa maturação
dos linfócitos B é estimulada pela IL-7*. A partir dos linfoblastos
no medula óssea também se formam os pro-linfócito
NK que amadurecem nela sem migrair para órgãos linfóides
e formam os linfonodos NK.
Os linfoblastos T estão predominantemente
no timo e vão sofrer maturação e originar pro-linfócitos
T, que se dirigem ao sangue e atingem o baço, onde formam a bainha
periarterial da polpa branca (ou corpúsculo de Malpighi ).Os linfócitos
T maduros que saem direto do timo ainda não estão capazes
de reconhecer o que é antígeno e o que é normal (próprio
do organismo). Estes linfócitos passam por uma fase de reconhecimento,
onde eles vão conhecer as substâncias, as proteínas,
os tecidos... próprios do organismo. Os pro-linfócitos T
também atingem os linfonodos, onde formam a zona paracortical. Os
linfócitos T maduros nos órgão linfóides se
diferenciam em subtipos: LT-helper, LT-supressor, LT-citotóxico
. Nestes locais eles recebem os CD ( cluster-differenciation) que faz diversas
funções como a ativação dos linfócitos
e a identificação dos lifnócitos específicos
por células do sistema imune (S.I.) . Em laboratórios,
o CD é usado para a sua identificação por técnicas
imunocitoquímicas.A partir dessa fase de maturação
nos órgãos linfóides os linfócitos T são
capazes de realizar as respostas imune-específicas que forem solicitadas
pelo organismo.
O promonócito derivada da diferenciação
do monoblasto ( ou MCFC) e dá origem ao monócito. O promonócito
é uma célula grande, que se divide em 2 monócitos
que passam a circular no sangue. Estes monócitos podem formar macrófagos
e todo sistema monocítico fagocitário* (SMF) (antigamente
conhecido como sistema retículo endotelial ). Os monócitos
podem se unir e formar células gigantes , osteoclastos, que são
multinucleadas.
O desenvolvimento dos leucócitos granulócitos
é mais complexo, e será detalhado a seguir, etapa por etapa
à partir das células formadoras de colônia granulocítica
(GCFC para neutrófilos, ECFC para eosinófilos, BCFC
para basófilos). Todas essa etapas se passam na medula óssea.
Promielócito - Contém grânulos específicos
junto com as granulações azurófilas. É específico
porque cada classe de leucócito possui seus grânulos distintos
que caracterizam cada tipo de célula, porém não pode
ser diferenciado pelo microscopia. A cromatina nuclear é mais condensada,
núcleo esférico, com nucléolos visíveis. Esta
célula dá origem ao mielócito e é ilustrada
na fig.1.3.
Mielócito Este é o verdadeiro precursor dos granulócitos
específicos, ou seja, podendo diferenciar morfologicamente o granulócito
basófilo, granulócito eosinófilo e granulócito
neutrófilo. Na microscopia óptica se observa o núcleo
em forma de rim( reniforme) e a cromatina muito condensada. A grande concentração
de grânulos específicos é que permite diferenciar os
tipos de mielócitos.
Iremos descrever ,a seguir, o desenvolvimento dos granulócitos a partir dos mielócitos específicos
Desenvolvimento dos neutrófilos:
Com o desenvolvimento do mielócito neutrófilo se forma
o metamielócito (fig.1.3), onde se inicia a formação
de lóbulos. Nesta célula, os lóbulos se apresentam
em forma de chanfradura. O metamielócito forma a "célula
com núcleo em bastão", onde os lóbulos nucleares tem
aspecto de bastão recurvado ( fig1.3). Este dá origem ao
neutrófilos maduro circulante.
Os neutrófilos em maturação se localizam
em compartimentos do organismo denominados de compartimentos funcionais
dos neutrófilos. Este desenvolvimento descrito acima, pode ser estimulado
por diversos fatores como a IL-3, GMCSF* e GCSF*.

Fig. 1.3 Desenvolvimento dos leucócitos granulócitos a partir do mieloblasto. Este processo ocorre na medula óssea ou no fígado e baço do embrião na fase hepatoesplenicotímico.
Desenvolvimento dos eosinófilos:
O mielócito eosinófilo dá origem ao metamielócito eosinófilo, com morfologia semelhante ao metamielócito neutrófilo, porém possui grânulos acidófilos no citoplasma. Esta célula dá origem ao eosinófilo maduro circulante.
Desenvolvimento dos basófilos:
O mielócito basófilo dá origem ao basófilo
maduro circulante, sem etapas intermediárias (fig1.3).
1.3.2 - Fatores estimuladores
Leucocitopoese e eritropoese são regulados por fatores estimulatórios
que vão designar a população de células necessárias
ao organismo. A eritropoese é regulada principalmente pela eritropoetina
que é liberada pelos rins numa situação de hipoxia.
Já a leucocitopoese possui um controle mais complexo, envolvendo
vários tipos de células diferentes específicas para
cada ocasião. Por exemplo: Numa infecção parasitária
por Schistossoma mansoni, ocorre uma eosinofilia acentuada, ou seja,
há um grande estímulo para a produção de eosinófilos.
Já uma infecção por vírus, na leucocitose prevalece
os linfócitos, e numa infecção por bactérias
prevalece os neutrófilos (polimorfonucleares) e macrófagos.
Cada etapa da leucopoese pode ser estimulada por fatores estimulatórios.
A IL-3, IL-1, IL6 e o GMCSF são significativos para a maturação
dos polimorfonucleares, macrófagos, basófilos e eosinófilos.
A IL-7 é importante para o amadurecimento dos linfócitos
B e T, por isso esta interleucina levou o nome de linfopoetina.
3.1.1 Mecanismo de ação e origem dos fatores que interferon na hemocitopoese
A IL-3 é liberada pelo LT, quando este é ativado (fig.3.2)
e age na etapa de formação das células progenitoras
(células da colônia), induzindo crescimento e indiferenciação
das células. Esta interleucina é importante também
para a ativação da fagocitose pelos macrófagos e liberação
de mediadores da inflamação, como a histamina, pelos mastócitos.
A IL-1 e IL-6 também participa do mecanismo de indução
das células fonte para formar células progenitoras. A IL-1
é o principal estimulador dos sistema imune, responsável
também pela febre e outras funções Ela é
produzida por macrófagos em sua maioria, mas fibroblastos, células
endoteliais e musculares lisas também a produzem. IL-6 é
produzida pelo LT-helper 2 ativado.
GMCSF é produzido principalmente por macrófagos
ativados, e ele age também na indução do crescimento
e diferenciação das células fonte à células
progenitoras (célula formadora de colônia granulocítica-monocítica=GM-CFC)
na medula e sua ação (e de outros fatores estimuladores)
está esquematizada na figura 1.5. Os fibroblastos, células
endoteliais e linfócitos também prduzem o GMCSF quando estimudas
pela IL-1. O GCSF age somente sobre a célula formadora de colônia
granulocítica e o MCFC sobre a monocítica.
IL-7 é o fator de estimulação de linfócitos.
Esta interleucina age sobre os pro-linfócitos B e T dos tecidos
linfóides e estimula o seu desenvolvimento até células
maduras atuantes. Essa interleucina é produzida pelas células
fonte da medula óssea, e vai circular pelo organismo por via hematogênica
e atingir os tecidos linfóides, onde vai agir sobre os nódulos.
Sobre os fatores inibitórios podemos citar em primeiro
lugar o FNT (fator necrosante de tumor) alfa. Essa substância é
liberada por linfócitos, mas principalmente por macrófagos
ativados contra alguns protozoários ou outros parasitas. O FNT vai
inibir o desenvolvimento das células fonte (totipotentes) da medula
e com isso levar a um quadro de anemia e imunossupressão. Este caso
ocorre principalmente na malária, onde a anemia ocorre por vários
fatores (anticorpos anti-eritrócitos, esquizogonia de hemácias)
que se somam a essa deficiência da hemocitopoese. A imunossupressão
agrava ainda mais o quadro da doença, pois faltam células
(linfopenia) para o combate à infecção.

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